perguntando-se
se estaria se atrevendo demais. - Se seus guerreiros quiserem
montar estas mulheres, que as tomem com gentileza e as
mantenham como esposas. Que lhes dêem lugares no khalasar
e que lhes façam filhos.
Qotho era sempre o mais cruel dos companheiros de sangue.
Foi ele que riu.
- Será que o cavalo se reproduz com ovelhas?
Algo no tom dele lembrou-lhe Viserys. Dany virou-se para
ele, zangada.
- O dragão alimenta-se quer de cavalos quer de ovelhas. Khal
Drogo sorriu.
- Vejam como ela se faz feroz! - disse. - É meu filho dentro
dela, o garanhão que monta o mundo, que a enche com o seu
fogo. Monta devagar, Qotho... se a mãe não te queimar no
lugar onde se senta, o filho te esmagará na lama. E você,
Mago, recolhe a língua e encontra outra ovelha para montar.
Estas pertencem à minha khaleesi - começou a estender a mão
para Daenerys, mas, ao erguer o braço, Drogo fez um súbito
esgar de dor e virou a cabeça.
Dany quase conseguia sentir a agonia dele. As feridas eram
piores do que Sor Jorah dissera.
- Onde estão os curandeiros? - exigiu saber. O khalasar tinha
dois tipos: mulheres estéreis e escravos eunucos. As ervanárias
lidavam com poções e feitiços; os eunucos, com facas, agulhas
e fogo. - Por que não tratam do khal?
- O khal mandou o homem sem cabelo embora, khaleesi -
garantiu-lhe o velho Cohollo. Dany viu que o companheiro de
sangue também tinha sido ferido; um golpe profundo no om-
bro esquerdo.
- Há muitos guerreiros feridos - disse teimosamente Khal
Drogo. - Que sejam curados primeiro. Esta seta não é mais
que uma picada de mosca; este pequeno corte é só uma nova
cicatriz de que me gabar perante meu filho.
Dany via os músculos de seu peito onde a pele fora arrancada.
Um fio de sangue corria da seta que lhe perfurara o braço.
- Não cabe ao Khal Drogo esperar - proclamou. - Jhogo,
procure esses eunucos e os traga imediatamente.
- Senhora de prata - disse uma voz de mulher atrás dela -, eu
posso ajudar o Grande Cavaleiro com as suas feridas.
Dany virou a cabeça. Quem falava era uma das novas
escravas, a mulher pesada de nariz achatado que a abençoara.
- O khal não precisa de ajuda de mulheres que dormem com
ovelhas - ladrou Qotho. - Aggo, corte-lhe a língua.
Aggo agarrou-lhe os cabelos e empurrou uma faca contra a
garganta da mulher. Dany ergueu a mão.
- Não. Ela é minha. Deixem-na falar.
Os olhos de Aggo saltaram dela para Qotho, e abaixou a faca.
- Não pretendo fazer nenhum mal, ferozes cavaleiros - a
mulher falava dothraki bem. Os trajes que usava tinham sido
feitos das mais leves e melhores lãs, ricas de bordados, mas
agora estavam cobertos de lama, ensanguentados e rasgados.
A mulher apertou o pano esfarrapado do corpete contra os
pesados seios, - Tenho alguns conhecimentos nas artes
curativas.
- Quem é você? - perguntou-lhe Dany.
- Chamam-me Mirri Maz Duur. Sou esposa de deus neste
templo.
- Maegi - grunhiu Haggo, passando os dedos pelo arakh.
Tinha o olhar escuro. Dany lembrava-se da palavra de uma
história aterrorizadora que Jhiqui lhe contara uma noite
junto à fogueira. Uma maegi era uma mulher que dormia com
demônios e praticava a mais negra das feitiçarias, uma coisa
vil, maldosa e sem alma, que vinha até os homens no escuro
da noite e sugava a vida e a força de seus corpos.
- Sou uma curandeira - disse Mirri Maz Duur.
- Uma curandeira de ovelhas - escarneceu Qotho. - Sangue do
meu sangue, eu digo que matemos esta maegi e que esperemos
pelos homens sem cabelo.
Dany ignorou a explosão do companheiro de sangue. Aquela
mulher idosa, modesta e gorda não lhe parecia uma maegi.
- Onde aprendeu a sua arte, Mirri Maz Duur?
- Minha mãe foi esposa de deus antes de mim e ensinou-me
todas as canções e feitiços que mais agradam ao Grande
Pastor, e como fazer os fumos sagrados e unguentos das
folhas, raízes e bagas. Quando era mais nova e mais bonita,
fui numa caravana a Asshai da Sombra, para estudar com os
magos de lá. Chegam navios de muitas terras a Asshai, e
fiquei durante muito tempo estudando os costumes de curar
de povos distantes. Uma cantora de lua de Jogos Nhai deu-
me de presente as suas canções de parto, uma mulher do
vosso povo cavaleiro ensinou-me as magias do capim, dos
grãos e dos cavalos, e um meistre das Terras do Poente abriu
um cadáver e mostrou--me todos os segredos que se escondem
sob a pele. Sor Jorah Mormont interveio.
- Um meistre?
- Chamava-se Marwyn - respondeu a mulher no Idioma
Comum. - Do mar. Do outro lado do mar. As Sete Terras,
disse ele. Terras do Poente. Onde os homens são de ferro e os
dragões governam. Ensinou-me esta língua.
- Um meistre em Asshai - meditou Sor Jorah. - Diz-me,
Esposa de Deus, que usava este Marwyn em volta do
pescoço?
- Uma corrente tão apertada que quase o sufocava, Senhor de
Ferro, com elos de muitos metais.
O cavaleiro olhou para Dany.
- Só um homem treinado na Cidadela de Vilavelha usa uma
corrente assim - disse -, e esses homens realmente sabem
muito sobre curar.
- Por que quer ajudar meu khal?
- Todos os homens pertencem ao mesmo rebanho, 